Reflexão sobre o bilinguismo

Esse extrato de texto compartilhado um dia por alguém no meu facebook (infelizmente sem citar a fonte), me levou hoje a uma breve reflexão sobre o bilinguismo.

Bilinguismo - Mitos

Neste mês em que falamos das nossas origens indígenas, o texto me fez pensar imediatamente no que foi a imposição do Português aos nossos nativos. A língua utilizada como ferramenta de afirmação identitária e como forma de dominação. Felizmente – e porque a transmissão da língua de herança se faz, apesar das barreiras – ainda temos heranças indígenas, nossas raízes, que ajudaram a construir o nosso Português do Brasil.

Mas e se os portugueses da época tivessem respeitado as línguas que encontraram no Brasil e tivessem estimulado, como hoje é feito em algumas sociedades, o bilinguismo nativo e a transmissão das línguas de herança indígenas simultaneamente ao aprendizado do português por nossos ancestrais? Seríamos todos bilíngues nativos, provavelmente de alguma das 274 línguas indígenas ainda faladas no país, ou ainda de outras línguas indígenas desaparecidas ou até de línguas africanas. O que isso mudaria em nossas vidas, e na organização do país? O que isso mudaria na história, não apenas brasileira, mas européia e mesmo mundial, se os saberes indígenas pudessem ter sido transmitidos e transpostos à cultura européia por pessoas educadas em dupla cultura? Vale a reflexão.

O primeiro contato para o estudo dessas línguas no território brasileiro foi feito pelos missionários jesuítas portugueses, na época da colonização, com as tribos Tupi do litoral, cujas línguas muito parecidas entre si, passaram a ser consideradas como o protótipo das línguas indígenas do País. Todas as outras línguas nativas eram desprezadas pelos portugueses, assim como pelos próprios tupis, sendo incluídas em um grupo denominado tapuya, que na língua tupi significa inimigo, bárbaro. Os missionários as chamavam de línguas travadas, consideradas anômalas e muito difíceis de pronunciar.*

Naturalmente ou à força, o Português acabou por se impor como língua oficial do país, sendo hoje inclusive falado por várias comunidades indígenas que deixaram de lado suas línguas nativas – e junto com ela grande parte de sua bagagem cultural – por conta do contato frequente com a sociedade “civilizada”. Ganharam uma outra visão de mundo – a portuguesa, européia. Mas perderam, para as novas gerações, o contato com a história de seus antepassados, transmitida principalmente de forma oral nas línguas nativas.

Hoje é quase consenso que o bilinguismo precoce tem efeitos extremamente positivos no desenvolvimento do cérebro, das capacidades cognitivas e emocionais dos seres humanos. Mas ainda estamos vivendo um momento de transição. Até bem pouco tempo atrás, a crença de que a transmissão de duas ou mais línguas às crianças poderia ser nefasta serviu também de argumento para a imposição de uma educação monolíngue, o que contribuiu para a coesão dos países em torno de suas línguas nacionais, para uma governabilidade mais fácil. Esta crença, mesmo que com menos força e cada vez menos argumentos científicos, ainda sobrevive em nosso cotidiano, se expressando através dos medos, incertezas e dificuldades na educação de nossos filhos, que crescem em ambiente naturalmente bilíngue.

Por outro lado, cada vez mais famílias monolíngues procuram hoje o bilinguismo, inscrevendo seus filhos em escolas americanas ou inglesas, para melhor preparar-lhes para o futuro. Ofertando-lhes a fluência na língua inglesa que tanto faltou aos pais na sua educação. Aproveitando de suas mentes abertas e permeáveis para um aprendizado precoce, natural, praticamente sem esforço, da língua que abre as portas para melhores oportunidades de emprego no futuro. Neste contexto a crença da confusão causada pela educação bilíngue praticamente não existe, deixando claro que nossos medos e incertezas estão diretamente ligados à nossa motivação, por sua vez influenciada pela sociedade em que vivemos.

Nossos filhos, pelo contexto em que nasceram, são destinados ao bilinguismo. Crescem naturalmente em ambiente bilíngue e desenvolvem, em maior ou menor grau, a capacidade comunicativa em, pelo menos, duas línguas: nossa língua majoritária – o Francês – e o que é hoje em nosso contexto a língua minoritária – o Português do Brasil. A fluência na língua majoritária está praticamente garantida, no caso de irem à creche ou escola francesas principalmente. O entendimento, a expressão e a alfabetização em Português dependem apenas da qualidade e da quantidade da exposição e do uso da língua pela criança em sociedade.

Este é o objetivo da nossa associação. Permitir que essas crianças não façam com o Português e com nossa herança cultural brasileira o que algumas comunidades indígenas tem feito com suas raízes. Ao contrário, que elas possam acrescentar à cultura e língua majoritárias locais, assim como à cultura e língua brasileiras, através da sua diversidade natural, das transposições e transferências linguísticas e culturais que podem fazer, construindo uma identidade multicultural. O que isso pode mudar na construção de suas vidas, suas famílias, e seus países? Como isso pode mudar o mundo?

Bom, isso é assunto para outro artigo… 🙂

*Fonte: Fundação Joaquim Nabuco – clique para ver o artigo na íntegra.

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