Desenvolvimento da linguagem em crianças de 0 a 3 anos

O desenvolvimento da linguagem é um processo cerebral complexo, cujos mecanismos ainda se conhece muito pouco. A pesquisa científica reúne no entanto dados de observação suficientes para determinar alguns padrões, permitindo-nos desvendar como esse processo se desenvolve na cabecinha de nossos bebês.

Percepção da linguagem: eles entendem mais, e mais cedo, do que você imagina!

A percepção da linguagem ocorre muito cedo, pois o feto já esta exposto aos sons, apesar das barreiras do liquido amniótico e do corpo da mãe. Com ouvido e cérebro operacionais desde aproximadamente a vigésima semana de gestação, recém-nascidos já são especialistas da musicalidade da fala. Assim diferenciam sua língua materna de outra língua desconhecida, reconhecem a voz da mãe e do pai e distinguem entonações.

Com apenas 5 meses, bebês são capazes de discriminar línguas próximas da sua língua materna, como por exemplo o inglês americano do inglês britânico. (1) Se seu filho só ouve português do Brasil e francês desde a gestação, certamente aos 5 meses ele estranhará mesmo alguém falando espanhol por perto!

Um exemplo desse processo pude verificar na reação da minha filha, que, com poucos meses de idade, ao me ver falando outra língua (não o português), me olhou atenta, como quem tivesse percebido imediatamente uma diferenciação na minha forma de comunicar naquele momento.

Mesmo que ainda não produza nenhum som inteligível, as pesquisas mostram que bebês de quatro a cinco meses já reconhecem seu nome. (2) Aos seis meses já conhecem a maioria das palavras do seu cotidiano e conseguem relaciona-las a imagens: papai, mamãe, mão, pé. (3) É o início do desenvolvimento do vocabulário, que a criança só vai poder expressar mais tarde, quando conseguir se especializar na emissão dos sons.

Gugu-dada é Português?

O balbucio dos bebês também tem importante papel no processo de desenvolvimento da linguagem. O bebê experimenta a emissão de sons desde o nascimento, e se especializa em função da reação que esses sons produzem no seu entorno.

Alguns estudos indicam que até o choro dos recém-nascidos já indica uma tendência de entonação ligada à língua materna. Bebês franceses choram com tonicidade no final do choro, assim como as palavras e frases francesas têm acento no final, e bebês alemães fazem o contrário. (4)

Depois o bebê testa todos os sons que sua boca, garganta e nariz são capazes de produzir. Primeiro as vogais, depois as consoantes, treinando repetições como “ma ma”, “ba ba”, “pa pa”, “gu gu”, que são sons universais, “fáceis” de emitir para qualquer bebê do mundo, que ainda vive deitado. (6)

Consoantes mais elaboradas vem com a posição sentada, junto com tentativas de combinações mais variadas, “ba be bi” “pa ta ma”, patati e patata… 🙂 Tudo isso acompanhado da entonação típica de sua(s) língua (s) materna(s). Nessa fase, a estrutura prosódica está formada, ou seja, a musicalidade da língua materna se estabelece também na produção. Aos 10 meses, é possível determinar qual a língua falada pelo bebê através da sonoridade de suas “frases”. (5)

Com aproximadamente 9 ou 10 meses a linguagem gestual torna-se prevalecente. O bebê já emite algumas palavras, ou “quase-palavras”, e procura imitar os gestos de seus pais e cuidadores para se comunicar. Olhar na mesma direção que o bebê, apontar e nomear objetos, descrever pedidos e ações de nossos filhos são reflexos naturais dos pais, determinantes para a próxima fase que será dar sentido às palavras.

Ele começou a falar! Mas apenas os pais entendem…

Entre 11-13 meses aproximadamente surgem as primeiras palavras, mas isso se intensificará entre 18 e 24 meses, com o que os cientistas chamam de explosão lexical. Nesse período a criança precisa de poucas repetições para ampliar o seu vocabulário, ou seja, seu aprendizado ocorre de maneira muito mais rápida.

Geralmente, primeiro aprendem nomes e depois os verbos, mas podem ocorrer exceções. Esse padrão foi observado também em estudos com crianças de diferentes culturas e línguas. (7)

A próxima etapa seria a formação de frases, que podem surgir entre 18 e 24 meses, inicialmente com junção de 2 palavras. No começo os indicadores gramaticais, preposições, verbos auxiliares, ficam ausentes e a criança mantém apenas as palavras essenciais. Não acontece assim também quando aprendemos uma nova língua?

Entre 27 e 36 meses existe um aumento do uso da gramática e de forma mais complexa. Inicialmente a criança dessa faixa etária supergeneraliza regras e somente depois vai afinando seu aprendizado com as exceções. Quem nunca ouviu o filho generalizar conjugações ou plurais, do tipo “laisse-moi tiendre ta main!” ou “eu vou apertar os botãos”? No caso de nossos queridos bilíngues franco-brasileiros, já ouvi frases como “c’est moi qui va vassorer le salon” ou “você esta me derranjando!”. O que poderiam ser considerados erros, são na verdade traços da extrema capacidade de análise e criatividade de nossas crianças.

E O MUNDO DAS CRIANÇAS BILÍNGUES? É DIFERENTE? E se o meu filho apresenta um atraso?

Existem variações individuais enormes no desenvolvimento da linguagem, em crianças monolíngue como em crianças bilíngues, podendo a criança entrar em uma etapa pouco antes ou depois do esperado.

Essas variações são ligadas a aspectos individuais do desenvolvimento, mas também a aspectos sociais, ligados ao meio onde a criança se desenvolve. E claro, o ambiente bilíngue é um fator social que influencia nesse desenvolvimento, mas nenhum estudo demonstra que o bilinguismo seja responsável por atrasos determinantes no desenvolvimento. Muito pelo contrário! Uma criança que tenha acesso a mais de uma língua desde muito cedo terá muitas vantagens a longo prazo e melhor desempenho cognitivo geral.

Outros aspectos sociais importantes a levar em consideração são a quantidade e a qualidade da exposição das crianças à linguagem, o estilo de interação (falar com a criança e não pela criança ou sobre a criança) e a diversidade de interlocutores.

Esse assunto será abordado em um próximo texto!

Caso pais e cuidadores percebam importante atraso nesse desenvolvimento, devem procurar uma orientação profissional.

 

Artigo escrito por Anita Tripoli em parceria com Namibia de Ana

Referências

Artigo inspirado pelas conferências de:
Judith Gervain – Laboratoire de Pschologie de la Perception, Université Paris Descartes
Thierry Nazzi – Laboratoire de Pschologie de la Perception, Université Paris Descartes
Christelle DODANE – Laboratoire PRAXILING, Université Paul Valéry
e no livro:
Bee H. – A criança em Desenvolvimento
Artigos cientificos citados:
(1) Thierry Nazzi, 1998
(2) Bouchon, Floccia, Fux, Adda-Decker & Nazzi, 2014
(3) Tincoff & Jusczyk, 1999, 2011
(4) Mampe, Priederici, Christophe et Wermke, 2009
(5) de Boysson-Bardies et al., 1984
(6) Locke, 1983
(7) Dedre Gentner, 1982

 

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