Considerações sobre o bilinguismo

Como já foi dito em um texto anterior, crianças bilíngues apresentam muitas vantagens em termos de desempenho cognitivo. Para tanto, o processo de aquisição das duas, ou mais, línguas deve ocorrer do modo mais natural possível e menos impositivo, com adequada exposição a cada uma das línguas.

As vantagens são grandes, dentre elas: melhoria nas habilidades de leitura e escrita, melhor controle da atenção e seletividade, melhor uso da memoria. Além disso, crianças bilíngues normalmente têm melhor desempenho em tarefas múltiplas, sem falar do seu ganho cultural e social, que será de imensa relevância!

Quanto mais cedo a criança for exposta à segunda língua, mais próxima será a sua pronúncia e fluência em relação aos nativos.

E efeitos negativos? Existem?

Efeitos negativos do bilinguismo precoce são quase nulos, entretanto, pesquisas constataram (1) que é possível que crianças bilíngues apresentem vocabulário inferior em cada um dos idiomas, se comparados às crianças monolíngues da mesma idade.

Em relação a atrasos na aquisição da linguagem, as pesquisas atuais têm constatado que os atrasos estão muito mais relacionados a características individuais da criança e dos pais e a fatores como motivação e qualidade de exposição à linguagem. Ou seja, não foram encontradas relações significativas com o bilinguismo em si.

Aqui ressalto: Ainda que haja, inicialmente, um pequeno atraso de linguagem em relação às crianças nativas de uma ou outra língua, espera-se que seja somente uma questão de tempo. Em poucos meses as competências devem ser equiparadas, conforme a qualidade de exposição da criança às línguas.

Caso esse atraso persista, provavelmente será devido a alguma outra situação ou dificuldade da criança. Nesse caso, será necessária uma avaliação profissional, que leve em consideração a situação de bilinguismo da criança.

Em relação à mistura de idiomas, muitas pessoas tem preocupação e medo de que a criança possa confundir as línguas ao fazer trocas e transferências de uma língua à outra. Entretanto, é natural que ocorram trocas e transferências. Isto faz parte do processo de aprendizagem e pouco a pouco deixará de acontecer, na medida em que a criança vai intensificando seu aprendizado das línguas e amadurecendo no discernimento do que é uma língua e como usa-la.

Se existe receio em relação a atrasos de linguagem em crianças que aprendem uma segunda língua muito cedo, verifica-se também esta mesma preocupação em alguns pais quanto à transmissão de sua língua de herança, quando as crianças nascem ou crescem num país diferente daquele dos pais.

Mas meu filho se nega a falar outra língua. Ele nunca será bilíngue.

Não é incomum a queixa de pais que dizem que o filho se nega a falar a língua de herança. Cabe aqui algumas reflexões importantes (2):

Nesse caso, provavelmente, a língua majoritária já está instaurada, sendo a outra língua, que a criança se nega a falar, a sua língua minoritária. Importante analisar qual é o grau e a qualidade de exposição da criança a essa língua minoritária. Será que a criança tem contato com esta língua o suficiente para senti-la como necessária e importante? Aqui não falamos apenas de tempo de exposição, mas também de qualidade de exposição, o que inclui a diversidade de contextos e de interlocutores, assim como o nível de interação demandado. Apenas estar exposto à língua através de um interlocutor na maior parte dos casos não é suficiente.

Além de avaliar a qualidade de contato com a língua, deve-se entender que a aquisição de uma língua é um processo longo, com algumas etapas precisas. Essas etapas são incontornáveis e podem ser mais ou menos complexas dependendo da situação do bilíngue. Em casos de bilinguismo precoce sucessivo (exposição efetiva à língua minoritária logo depois da aquisição da língua majoritária), há a possibilidade da criança manter-se em silêncio, “negando-se” a falar a língua durante certo tempo. Porém, se mantém uma observação ativa e é exposta adequadamente, pode ser somente um período necessário para absorção do conhecimento, para depois passar a falar frases completas, “como por milagre”.

Devemos sempre nos perguntar: estamos respeitando o tempo da criança ou somos pais muito ansiosos?

Abordaremos esse assunto em um próximo texto!

As crianças devem ser incentivadas a aprender outro idioma e ter contato ao máximo com as diferenças culturais! Hoje em dia, com o advento dos meios de comunicação e internet, fica muito mais fácil difundir essa aprendizagem!

Texto co-escrito por Anitta Tripoli e Namibia de Ana.
Referências:
(1) BYALYSTOK, E.-  SITE Enciclopediacrianca.com
(2) FLORY E.V. Influências do bilinguismo precoce sobre o desenvolvimento infantil, 2008.

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